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Quem foi Sérgio Paulo Rouanet e por que a lei de incentivo à cultura leva seu nome?

16 de ago.
11 min de leitura

Sérgio Paulo Rouanet foi diplomata, filósofo, ensaísta e secretário da Cultura da Presidência da República entre 1991 e 1992. Sua atuação na formulação da nova política de financiamento cultural fez com que a Lei nº 8.313/1991 ficasse popularmente conhecida como Lei Rouanet.
Sérgio Paulo Rouanet foi diplomata, filósofo, ensaísta e secretário da Cultura da Presidência da República entre 1991 e 1992. Sua atuação na formulação da nova política de financiamento cultural fez com que a Lei nº 8.313/1991 ficasse popularmente conhecida como Lei Rouanet.

Poucas leis brasileiras são tão conhecidas pelo nome de uma pessoa quanto a Lei Rouanet. A expressão aparece constantemente em notícias, debates políticos, projetos culturais e discussões nas redes sociais.

Mas existe uma curiosidade: “Lei Rouanet” não é o nome oficial da legislação.

Trata-se da Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991, que instituiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura — PRONAC.

E outra informação talvez seja ainda mais surpreendente: Sérgio Paulo Rouanet não era deputado, senador nem ministro da Cultura quando a lei foi criada.

Ele era diplomata, filósofo, ensaísta, tradutor e secretário da Cultura da Presidência da República durante o governo Fernando Collor.

Então, por que uma das legislações culturais mais conhecidas do Brasil passou a carregar seu sobrenome?

Para responder a essa pergunta é preciso voltar ao início da década de 1990 e compreender um período bastante turbulento da política cultural brasileira.

 

Antes da lei: quem foi Sérgio Paulo Rouanet?

Sérgio Paulo Rouanet nasceu no Rio de Janeiro, em 23 de fevereiro de 1934.

Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, ingressou na carreira diplomática e desenvolveu uma extensa trajetória intelectual.

Estudou Economia, Ciência Política e Filosofia e concluiu doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Além da diplomacia, destacou-se como ensaísta, filósofo, tradutor e estudioso de temas relacionados à cultura, modernidade, racionalidade e pensamento iluminista.

Sua produção intelectual ultrapassava, portanto, a administração pública cultural.

Rouanet fazia parte de uma geração de intelectuais brasileiros preocupados com questões como democracia, desenvolvimento, racionalidade, conhecimento, liberdade e papel da cultura na sociedade.

Em 1992, pouco depois da aprovação da lei que ficaria associada ao seu nome, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 13. Permaneceu na instituição até sua morte, em 3 de julho de 2022, aos 88 anos.

Mas sua entrada na história das políticas culturais brasileiras aconteceu em um momento bastante particular.

 

Para entender Rouanet, é preciso entender o governo Collor

Fernando Collor de Mello assumiu a Presidência da República em 15 de março de 1990.

Era o primeiro presidente eleito diretamente pelo voto popular depois de décadas sem eleição presidencial direta, e iniciou seu governo propondo uma ampla reorganização do Estado brasileiro.

A Cultura foi profundamente afetada. O Ministério da Cultura, que havia sido criado em 1985 durante o governo José Sarney, deixou de existir como ministério.

A reorganização administrativa promovida pelo governo Collor criou em seu lugar a Secretaria da Cultura da Presidência da República, diretamente vinculada à Presidência. A estrutura foi formalizada pela Lei nº 8.028/1990.

Portanto, uma informação importante para compreender a história é:

Sérgio Paulo Rouanet nunca foi ministro da Cultura no governo Collor.

Ele foi secretário da Cultura da Presidência da República.

 

Fernando Collor governava o Brasil quando Sérgio Paulo Rouanet assumiu a Secretaria da Cultura. Em 23 de dezembro de 1991, Collor sancionou a Lei nº 8.313, que instituiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura — PRONAC.
Fernando Collor governava o Brasil quando Sérgio Paulo Rouanet assumiu a Secretaria da Cultura. Em 23 de dezembro de 1991, Collor sancionou a Lei nº 8.313, que instituiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura — PRONAC.

1990: um dos períodos mais conturbados da política cultural brasileira

A transformação do Ministério em Secretaria não foi apenas uma alteração de nomenclatura.

O início do governo Collor promoveu uma ampla reorganização das instituições culturais federais. Órgãos foram extintos, transformados ou incorporados a outras estruturas.

Aquele processo atingiu instituições ligadas ao cinema, às artes, ao patrimônio e à administração cultural. A Embrafilme, por exemplo, tornou-se um dos símbolos do desmonte institucional daquele período.

Estudos do Ipea descrevem 1990 como um momento de forte ruptura da estrutura federal de financiamento e administração da cultura.

O próprio ex-secretário de Cultura Ipojuca Pontes, que antecedeu Rouanet, descreveu posteriormente sua política como voltada à diminuição do intervencionismo estatal e ao desmonte do que considerava um aparato burocrático excessivo.

Portanto, havia naquele momento uma determinada visão sobre o papel do Estado na cultura: reduzir estruturas públicas e alterar profundamente a maneira como o governo federal atuava no setor.

 

A Lei Sarney também havia sido atingida

Ao mesmo tempo, o Brasil perdia seu principal mecanismo federal de incentivo fiscal à cultura.

Desde 1986 funcionava a Lei nº 7.505, conhecida como Lei Sarney, que havia inaugurado no âmbito federal um modelo de utilização de benefícios do Imposto de Renda para estimular doações, patrocínios e investimentos culturais.

No início do governo Collor, uma ampla revisão dos benefícios fiscais suspendeu incentivos existentes, inclusive aqueles relacionados à Lei Sarney.

Isso criou uma situação peculiar.

Em pouco tempo, o país havia perdido:

·      o Ministério da Cultura como ministério;

·      parte importante da estrutura institucional existente;

·      e o mecanismo federal de incentivo fiscal que vinha sendo utilizado desde 1986.

Era nesse ambiente que Sérgio Paulo Rouanet assumiria a condução da política cultural federal.

 

Antes de Rouanet, veio Ipojuca Pontes

O primeiro responsável pela Secretaria da Cultura no governo Collor não foi Rouanet.

Foi o escritor, jornalista e cineasta Ipojuca Pontes.

Sua gestão ficou associada justamente à reorganização radical das instituições culturais promovida no início do governo.

Rouanet assumiu a Secretaria posteriormente, em março de 1991, encontrando uma área cultural que já havia passado por profundas mudanças institucionais. A cronologia oficial do Ministério da Cultura situa sua gestão entre 1991 e 1992.

É nesse momento que começa a construção da política que levaria seu nome.

 

Rouanet assume a Cultura em 1991

A chegada de Sérgio Paulo Rouanet representou uma nova etapa na política cultural do próprio governo Collor.

Se 1990 havia sido marcado principalmente pela redução e reorganização das estruturas públicas, em 1991 começou a construção de um novo sistema de financiamento.

Rouanet participou diretamente da elaboração desse modelo.

Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada registram que a Lei nº 8.313/1991 foi elaborada durante sua gestão na Secretaria da Cultura e buscou restabelecer princípios presentes na experiência anterior da Lei Sarney, ao mesmo tempo em que estruturava um novo programa federal de financiamento cultural.

Mas há uma precisão importante:

Rouanet não apresentou pessoalmente um projeto de lei como parlamentar, porque ele não era parlamentar.

O projeto foi enviado ao Congresso pelo Poder Executivo, durante o governo Fernando Collor.

Na Câmara dos Deputados, recebeu o número PL nº 1.448/1991.

A lei não foi simplesmente “escrita por Rouanet e assinada por Collor”

É comum resumir essa história afirmando:

“Sérgio Paulo Rouanet criou a Lei Rouanet.”

A afirmação ajuda a explicar a origem do nome, mas simplifica um processo bem mais complexo.

Rouanet teve papel central na formulação e articulação da proposta dentro do Poder Executivo.

O governo Collor tomou a decisão política de encaminhá-la ao Congresso.

Depois disso, deputados e senadores discutiram, analisaram, emendaram e alteraram o projeto.

Somente após o processo legislativo o texto retornou à Presidência da República para sanção.

Portanto, é mais correto dizer:

Sérgio Paulo Rouanet liderou a formulação da política que deu origem à Lei nº 8.313/1991, apresentada pelo Poder Executivo, posteriormente modificada e aprovada pelo Congresso Nacional e finalmente sancionada pelo presidente Fernando Collor.

 

O Congresso teve participação importante

Na Câmara dos Deputados, a proposta tramitou como PL nº 1.448/1991.

Depois de sua aprovação, chegou ao Senado como Projeto de Lei da Câmara nº 109/1991 — PLC 109/1991.

E a tramitação revela um aspecto interessante: parlamentares que depois ocupariam posições de grande importância na política nacional participaram da discussão.

Entre eles estava Fernando Henrique Cardoso, então senador, que teve atuação como relator durante a tramitação no Senado. Os registros legislativos também mostram a participação de José Sarney, justamente o presidente cujo sobrenome havia batizado popularmente a legislação anterior de incentivo à cultura.

Ou seja, a criação da Lei Rouanet envolveu personagens de diferentes partidos e trajetórias políticas.

Isso também ajuda a entender por que é inadequado tratar sua origem como uma iniciativa isolada de apenas uma pessoa.

 

Uma curiosidade histórica: Sarney discutindo a “Lei Rouanet”

Existe um simbolismo interessante nessa tramitação.

José Sarney havia defendido mecanismos de incentivo à cultura desde os anos 1970 e, como presidente, sancionara em 1986 a Lei nº 7.505, que ficaria conhecida como Lei Sarney.

Cinco anos depois, agora senador, aparece novamente nas discussões parlamentares relacionadas ao projeto que criaria o novo sistema.

A própria ementa da Lei Rouanet reconhece essa continuidade histórica.

Ela começa declarando que a nova legislação:

“restabelece princípios da Lei nº 7.505, de 2 de julho de 1986”

e institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura.

Portanto, a Lei Rouanet não procurava apagar completamente a experiência da Lei Sarney.

Ela procurava reconstruí-la dentro de uma estrutura diferente.

 

O projeto mudou durante a tramitação

Outro detalhe pouco conhecido é que o Congresso não recebeu a proposta do Executivo e simplesmente disse “sim”.

Houve discussão, apresentação de emendas e modificações.

O Senado chegou a aprovar um substitutivo, isto é, um texto alternativo construído durante o processo legislativo.

Isso significa que aquilo que se transformou na Lei nº 8.313/1991 é resultado de uma combinação entre:

·      a proposta construída pelo Executivo e pela Secretaria da Cultura;

·      a atuação de Sérgio Paulo Rouanet;

·      as negociações políticas do governo Collor;

·      as alterações realizadas pela Câmara e pelo Senado; e, finalmente,

·      a sanção presidencial.

 

23 de dezembro de 1991: nasce oficialmente a Lei nº 8.313

Depois da tramitação no Congresso, o projeto foi encaminhado para Fernando Collor.

Em 23 de dezembro de 1991, o presidente sancionou a Lei nº 8.313.

Estava criado o Programa Nacional de Apoio à Cultura — PRONAC.

E esse é outro ponto fundamental:

a lei não se chama oficialmente Lei Rouanet.

Assim como ocorreu com a Lei Sarney, o sobrenome passou a ser utilizado popularmente em referência ao personagem associado à sua formulação.

Com o tempo, “Lei Rouanet” se tornou muito mais conhecida do que: Lei nº 8.313/1991

 

Por que, então, ela ficou conhecida como “Lei Rouanet”?

Porque Sérgio Paulo Rouanet era o secretário da Cultura responsável pela formulação e articulação da nova política cultural federal quando a legislação foi construída.

A própria Academia Brasileira de Letras registra sua atuação como secretário da Cultura entre 1991 e 1992 e sua responsabilidade pela criação da legislação de incentivo cultural que passou a levar seu nome.

Mas o uso do sobrenome tem um efeito curioso.

Ele fez com que muitas pessoas passassem a imaginar que “Rouanet” fosse o nome de um programa específico de patrocínio a artistas.

Não é. Rouanet é o sobrenome de Sérgio Paulo Rouanet.

E a legislação associada a ele criou algo bem mais amplo do que um mecanismo de patrocínio.

 

A Lei Rouanet não criou apenas o incentivo fiscal

Esse talvez seja o maior equívoco existente atualmente sobre a legislação.

No debate cotidiano, tornou-se comum utilizar “Lei Rouanet” como sinônimo de: empresa patrocinando projeto cultural com incentivo fiscal.

Mas a Lei nº 8.313 foi concebida de maneira mais abrangente.

Seu artigo 1º instituiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura — PRONAC, cuja finalidade era captar e canalizar recursos para o setor cultural.

O texto estabeleceu diversos objetivos, entre eles:

·      facilitar o acesso às fontes da cultura e o exercício dos direitos culturais;

·      estimular a regionalização da produção cultural brasileira;

·      apoiar, valorizar e difundir manifestações culturais;

·      proteger expressões dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira;

·      preservar bens materiais e imateriais do patrimônio cultural e histórico;

·      estimular a produção e a difusão de bens culturais;

·      favorecer a livre circulação desses bens.

Portanto, o centro da lei era a construção de uma política de financiamento cultural, e não simplesmente a concessão de benefícios a determinados projetos.

 

A Lei Rouanet criou o PRONAC. O incentivo fiscal é um dos mecanismos do PRONAC.

Essa distinção é essencial para compreender corretamente a legislação.

Estudos do Ipea destacam justamente que a nova legislação procurou combinar incentivo à produção cultural com maior preocupação quanto à aplicação dos recursos.

Ou seja:

a Lei Rouanet não foi simplesmente uma nova versão da Lei Sarney.

Ela foi também uma resposta aos aprendizados produzidos pela experiência anterior.

 

E qual foi exatamente o papel de Fernando Collor?

A relação entre Collor e a Lei Rouanet produz uma das maiores ironias dessa história.

Foi o governo Collor que, em 1990, eliminou o Ministério da Cultura como ministério e promoveu uma profunda reorganização das instituições culturais federais.

Mas foi também durante o governo Collor que surgiu a legislação que se tornaria o principal marco do financiamento cultural federal nas décadas seguintes.

Isso não significa que Collor pessoalmente tenha elaborado a Lei Rouanet.

A formulação técnica e institucional está associada à gestão de Sérgio Paulo Rouanet na Secretaria da Cultura.

Mas Collor ocupava a Presidência da República.

Seu governo enviou a proposta ao Legislativo e, depois da aprovação pelo Congresso, foi Collor quem sancionou a Lei nº 8.313 em 23 de dezembro de 1991.

Temos, portanto, uma sequência aparentemente contraditória:

1990: o governo Collor reduz drasticamente a estrutura federal da Cultura.

1991: Sérgio Paulo Rouanet assume a Secretaria da Cultura.

1991: o Executivo apresenta uma nova proposta de financiamento cultural.

23 de dezembro de 1991: Collor sanciona a Lei nº 8.313.

Essa mudança de direção ajuda a mostrar que políticas públicas raramente são histórias lineares.

 



A Lei nasceu sem existir Ministério da Cultura

Essa é outra curiosidade pouco conhecida.

Quando a Lei Rouanet foi sancionada, em dezembro de 1991, não existia Ministério da Cultura com status ministerial.

Existia a Secretaria da Cultura da Presidência da República.

Portanto, Sérgio Paulo Rouanet estruturou a nova política federal de financiamento cultural a partir de uma Secretaria.

O Ministério da Cultura somente recuperaria seu status posteriormente, durante o governo de Itamar Franco, após o período Collor. A reorganização promovida em 1992 devolveu à Cultura a condição ministerial.

A cronologia ajuda a visualizar:

·      1985 — criação do Ministério da Cultura

·      1990 — governo Collor transforma o Ministério em Secretaria

·      1991 — Sérgio Paulo Rouanet assume a Secretaria

·      23/12/1991 — sanção da Lei nº 8.313

·      1992 — Ministério da Cultura é recriado

 

A lei de 1991 não é exatamente a lei que conhecemos hoje

Há ainda outro cuidado histórico importante.

A Lei Rouanet sofreu alterações ao longo das décadas.

Foram aprovadas novas leis, medidas provisórias, decretos, instruções normativas e regulamentações que modificaram procedimentos, percentuais e formas de funcionamento.

Uma alteração particularmente relevante ocorreu nos anos 1990. A Lei nº 9.874/1999, originada de uma sequência de medidas provisórias iniciadas durante o governo Fernando Henrique Cardoso, modificou diversos dispositivos da Lei nº 8.313.

Por isso, é preciso ter cuidado ao atribuir a Sérgio Paulo Rouanet todas as características do sistema que passou a existir posteriormente.

O mecanismo evoluiu e foi transformado por diferentes governos e pelo Congresso ao longo de mais de três décadas.

 

Então Rouanet criou a “renúncia fiscal para artistas”?

Essa é outra simplificação comum.

Primeiro porque o incentivo fiscal à cultura já existia antes de Rouanet, por meio da Lei Sarney.

Segundo porque a Lei nº 8.313 não foi concebida exclusivamente para artistas.

Ela trata de uma política ampla de apoio à cultura que envolve produção, preservação, patrimônio, circulação, formação, difusão e diversas manifestações culturais.

Terceiro porque o próprio PRONAC não depende exclusivamente do incentivo fiscal.

O programa nasceu com diferentes mecanismos de financiamento.

Por isso, uma forma mais precisa de explicar seria:

Sérgio Paulo Rouanet liderou a formulação de um novo sistema federal de financiamento cultural que recuperava princípios da Lei Sarney, criava o PRONAC e organizava diferentes mecanismos de apoio à cultura, entre eles o incentivo fiscal.

 

Muito além de um sobrenome

Conhecer quem foi Sérgio Paulo Rouanet é importante porque ajuda a retirar a discussão sobre a lei do terreno dos slogans.

“Rouanet” não é uma empresa.

Não é um fundo criado para artistas famosos.

Não é o nome de um imposto.

E também não é sinônimo de todo o financiamento público da cultura brasileira.

Rouanet era uma pessoa. Um diplomata e intelectual que, durante um curto período à frente da política cultural federal, participou da construção de uma legislação que atravessaria governos, crises políticas, mudanças econômicas e intensos debates públicos.

A lei que passou a carregar seu sobrenome acabaria sobrevivendo inclusive ao próprio governo que a criou.

Fernando Collor deixou a Presidência em 1992.

Sérgio Paulo Rouanet deixou a Secretaria da Cultura.

O Ministério da Cultura voltou a existir.

Outros presidentes, ministros e parlamentares modificaram a legislação e seus regulamentos.

Mas a Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991, permaneceu como um dos principais marcos legais do financiamento cultural brasileiro.

 

E talvez esteja aí a maior confusão sobre a Lei Rouanet

Ao longo dos anos, o nome do mecanismo de incentivo fiscal ganhou tanta força que praticamente engoliu o nome do próprio programa.

Muita gente conhece a expressão Lei Rouanet.

Pouca gente conhece a expressão PRONAC.

E menos pessoas ainda sabem que o PRONAC foi concebido com três mecanismos diferentes de financiamento.

Essa distinção muda completamente a compreensão da lei.

Porque a pergunta deixa de ser apenas:

“Como uma empresa patrocina um projeto pela Lei Rouanet?”

e passa a ser:

“Como o Brasil estruturou um programa nacional para financiar e apoiar sua cultura?”

Foi essa segunda pergunta que estava no centro da legislação criada em 1991.

E é justamente por isso que, para compreender verdadeiramente a Lei Rouanet, não basta falar apenas de incentivo fiscal.

É preciso conhecer o Fundo Nacional da Cultura, os Ficart e o Incentivo a Projetos Culturais.

São esses os três mecanismos que estruturaram originalmente o Programa Nacional de Apoio à Cultura.

E serão eles o assunto do próximo texto desta série.

Compartilhe o texto afinal, conhecimento tem que circular.

 

Fontes:

-  Academia Brasileira de Letras 

- Câmara dos Deputados - PL nº 1.448/1991

- Senado Federal - PLC nº 109/1991

- Lei nº 8.313/1991

- Lei nº 8.028/1990 

- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada — Ipea

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