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A POLILAMININA E A GESTÃO DE PROJETOS – COMO PERDEMOS O FUTURO

montagem de uma imagem com a foto da Dra Tatiana Sampaio e a imagem da Laminina que tem um formato de cruz
"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro." Clarice Lispector

A reflexão de Clarice Lispector, embora nascida no campo da psicanálise e do existencialismo, oferece uma das lições mais brutais de Gestão de Projetos e Estratégia: a diferença entre eficiência e eficácia, entre o custo e o valor.

Quando um gestor olha para um orçamento e enxerga apenas números "sobrando", ele corre o risco de remover a peça que, embora pareça imperfeita ou ociosa, mantém a integridade do todo. No caso da ciência brasileira e da patente da polilaminina pela UFRJ, o "defeito" cortado foi o investimento contínuo, visto por muitos como um gasto excessivo com as Universidades no Brasil. O resultado? O desabamento de uma soberania econômica e tecnológica.


O Paradoxo do Corte que afetou a patente da Polilaminina: Quando o Barato Sai Caro

Na gestão de projetos, existe um conceito chamado Triângulo de Ferro (Escopo, Tempo e Custo). Quando se decide reduzir drasticamente o custo sem uma análise de risco profunda, a qualidade ou a própria viabilidade do projeto é comprometida.

  • Economia de Materiais: Já vimos que edifícios desabam porque substituiu-se o aço calculado pelo mais barato. O "lucro" imediato da construtora torna-se o prejuízo total (e a tragédia) do futuro.

  • Miopia Estratégica: O gestor imediatista foca no fechamento do caixa do mês. O gestor estratégico foca no ROI (Retorno sobre Investimento) de longo prazo. Cortar a manutenção de uma patente é economizar "centavos" hoje para perder bilhões de dólares em royalties e prestígio internacional amanhã. Isso é o que aconteceu com a Polilaminina.


A Anatomia do Desastre Administrativo

O caso da DRA. TATIANA SAMPAIO e da polilaminina é o exemplo perfeito de risco não mitigado. O corte de gastos nas universidades não foi um ajuste; foi uma amputação de futuro.

Durante a decisão da PEC do "Teto de Gastos", na gestão Temer e com apoio de deputados e senadores, o corte influenciou todas as universidades brasileiras precarizando toda a ciência, todas as pesquisas. À partir de um movimento de direita, à partir das palavras do presidente anterior, que afirmava que universidades não são importantes e que são «redutos de esquerdistas», ambientes onde os alunos fazem «tudo, menos estudar» e por isso, a gestão, desde Temer, foi minando os repasses para as universidades, o que refletiu diretamente nas pesquisas.

Administrar não pode ser algo passional e afetado por opiniões politicas-partidárias, mesmo feita por gestores públicos. Administrar não é apenas equilibrar colunas de crédito e débito; é prever o impacto de cada centavo retirado de um ecossistema vivo. Quando olhamos para as ‘Decisões Imediatistas’ ou 'passionais' tomadas nos últimos anos, percebemos um efeito dominó que compromete o futuro do Brasil.

Não estamos falando de política partidária, mas de política pública. A política pública, além da gestão do hoje, tem que ser feita para as conquistas do amanhã. E sim, sabemos que ser visionário não é algo que dê votos pois nem sempre se colhe no mandato de 4 anos os resultados. Mas é absolutamente necessário.


1. A Propriedade Intelectual como Vítima da Economia de Centavos

O corte de verbas para a manutenção de patentes é, talvez, o exemplo mais irônico de má gestão. Para economizar taxas administrativas hoje, o país abre mão da propriedade intelectual internacional. A consequência estratégica é imediata: a ciência brasileira deixa de gerar riqueza interna. No impacto nacional, deixamos de ser os donos das soluções — como a polilaminina — para nos tornarmos meros compradores de tecnologias que nós mesmos inventamos. Pagaremos em dólar, no futuro, o que negligenciamos em reais no passado.


2. O Êxodo do Conhecimento: A Fuga de Cérebros

A redução de bolsas de pesquisa é apresentada como um corte de "gasto", mas é, na verdade, um despejo de talentos. Sem incentivo, o pesquisador brasileiro é forçado à "fuga de cérebros", migrando para países que compreendem o valor da ciência. Para a gestão nacional, isso representa a perda do capital intelectual, o ativo mais caro e difícil de produzir em qualquer nação moderna. Formamos doutores com recursos públicos para que eles gerem lucro e inovação no exterior.


3. O Desmonte Físico e a Narrativa da Inutilidade

Por fim, as narrativas de "gastos desnecessários" serviram de cortina de fumaça para o desmonte da infraestrutura laboratorial. Sem manutenção e sem insumos, laboratórios de ponta tornam-se salas vazias. O resultado é um atraso de décadas em nossa competitividade global. Enquanto o mundo corre em direção à economia do conhecimento, o Brasil, por falta de visão estratégica, deu passos largos para trás, ignorando que o "defeito" do gasto em ciência era, na verdade, a viga mestra da nossa economia.

 

O "Defeito" que Sustenta o Edifício

Muitas vezes, a pesquisa básica em uma universidade é vista por administradores arrogantes como um "defeito" — algo lento, que não gera lucro imediato, que "gasta" luz e recursos sem entregar um produto na prateleira no mês seguinte.

No entanto, como Clarice alertou, esse é o "defeito" que sustenta o edifício. A ciência é a base. Sem a pesquisa fundamental, não existe a inovação disruptiva. Ao cortar o que parecia supérfluo, o governo e o congresso cortaram o fio de segurança que permitiria ao Brasil sentar na "primeira fila da economia".

O erro da arrogância: Achar que se sabe o que é descartável sem entender a complexidade das conexões. Em 2026, colhemos o amargor de uma descoberta revolucionária que, embora brasileira em DNA, poderá enriquecer laboratórios estrangeiros porque não tivemos a "inteligência administrativa" de proteger o que é nosso. E isso é irreversível.

 

Lições para o Futuro: Gestão Além do Planilha

Para que projetos (sejam eles de engenharia, de empresas ou de nações) não desabem, a gestão precisa evoluir para uma Visão Sistêmica:

  1. Análise de Impacto de Longo Prazo: Antes de cortar, pergunte: "O que isso sustenta daqui a 10 anos?".

  2. Dados contra Fake News: Decisões baseadas em ideologia ou informações falsas são o caminho mais curto para o fracasso técnico.

  3. Humildade Gerencial: É preciso deixar de lado a arrogância. O mundo muda rápido; o que hoje parece um gasto, amanhã é a única fonte de receita possível.

A gestão de projetos não é sobre cortar o máximo possível, mas sobre alocar recursos de forma inteligente para que o edifício não apenas fique de pé, mas alcance novas alturas. Sem ciência e estratégia, continuaremos apenas catando os escombros de grandes possibilidades perdidas.

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